Filosofia · 5 minutos
Por que algumas pessoas conseguem e outras não?
As histórias dos vencedores contam algo importante, mas raramente contam tudo o que separou uma trajetória de outra.
Quando alguém vence, é fácil encontrar razões para explicar o resultado. Trabalhou muito, persistiu, assumiu riscos, aprendeu com os erros, aproveitou oportunidades. Essas qualidades realmente podem ter sido importantes. O problema aparece quando olhamos apenas para quem conseguiu e tratamos aquilo que encontramos em sua história como explicação suficiente da vitória.
Pense em duas pessoas que perseguem objetivos semelhantes. As duas estudam, trabalham, insistem e fazem sacrifícios. Uma encontra a oportunidade certa, conhece as pessoas certas, entra num mercado favorável e consegue transformar seu esforço em resultado. A outra continua tentando, mas encontra condições diferentes e termina muito longe do mesmo lugar. Se esforço e persistência estavam presentes nas duas histórias, precisamos procurar em outro lugar aquilo que ajudou a separá-las.
Isso não significa que as duas pessoas tenham sido igualmente competentes ou tomado decisões igualmente boas. Diferenças individuais existem e podem ser decisivas. Uma pode ter percebido melhor uma oportunidade, cometido menos erros ou executado melhor. Ainda assim, o resultado não permite concluir automaticamente que quem venceu fez tudo certo e quem perdeu fez tudo errado.
Essa confusão acontece porque conhecemos muito melhor as histórias dos vencedores. São eles que dão entrevistas, escrevem livros, contam como começaram e explicam quais hábitos consideram responsáveis pelo sucesso. O fracassado que trabalhou com a mesma intensidade, assumiu riscos semelhantes e não chegou ao mesmo lugar quase nunca recebe o mesmo espaço. O sucesso seleciona quem poderá explicar o sucesso.
Por isso, uma história de vitória pode ser verdadeira e ainda assim enganar. O vencedor realmente trabalhou, realmente persistiu e realmente tomou decisões importantes. Mas encontrar essas características em sua trajetória não demonstra que foram elas, sozinhas, que produziram a diferença. Para saber por que uma pessoa conseguiu e outra não, precisaríamos olhar também para aquilo que estava presente nas vidas daqueles que fizeram muito do mesmo e terminaram de maneira diferente.
Uma qualidade pode aumentar as chances de sucesso sem garantir o sucesso. Persistir pode ser necessário e ainda não ser suficiente. Trabalhar muito pode fazer enorme diferença e ainda não explicar por que dois esforços semelhantes receberam recompensas tão diferentes.
É justamente aí que a pergunta fica desconfortável. Quando alguém consegue, queremos saber o que essa pessoa fez para vencer. Mas talvez devêssemos perguntar também: quantas pessoas fizeram algo parecido e nunca chegaram a ser vistas?
Você apenas teve Sorte investiga até onde realmente vai nossa autoria sobre aquilo que conquistamos: o que pertence ao esforço, às escolhas e à competência, e o que depende de condições que não escolhemos, pessoas que não controlamos, acontecimentos que não previmos e até daquilo que nunca chegou a acontecer.
Não é uma tentativa de negar o mérito nem de reduzir nossas realizações à sorte. É um convite para olhar com mais cuidado para a história que contamos sobre nós mesmos — e perguntar quanto dela realmente começou em nós.