Filosofia · 5 minutos
Quantas pessoas precisaram escolher você?
Nenhuma carreira, empresa ou projeto importante depende apenas das decisões de quem está no centro da história.
Nenhuma carreira, empresa ou projeto importante depende apenas das decisões de quem está no centro da história. Em algum momento, outras pessoas precisaram responder ao que você fez. Um cliente comprou, um empregador contratou, um investidor confiou, um sócio permaneceu, alguém recomendou seu nome ou simplesmente decidiu prestar atenção. Você tomou muitas decisões, mas também precisou ser escolhido.
É fácil esquecer isso porque conhecemos muito bem aquilo que fizemos para receber essas respostas. Preparamos a proposta, estudamos para a entrevista, melhoramos o produto, insistimos depois das recusas. Tudo isso pode aumentar enormemente nossas chances. Ainda assim, existe um limite: podemos oferecer razões para alguém dizer “sim”, mas não podemos dizer “sim” no lugar dessa pessoa.
E quem está do outro lado não existe apenas para participar da nossa história. Possui interesses, problemas, experiências e prioridades próprias. Uma empresa pode estar procurando exatamente o seu perfil ou ter mudado suas necessidades poucos dias antes. Um cliente pode gostar do seu produto e não possuir recursos naquele momento. Um editor pode reconhecer qualidade num livro e simplesmente estar procurando outro tipo de obra. Ser bom não significa encontrar sempre alguém disposto ou capaz de escolher você.
Isso não transforma sucesso em acaso. Competência continua importando, assim como preparação, reputação e capacidade de convencer. Uma pessoa pode fazer muito para aumentar a probabilidade de receber respostas favoráveis. O que ela não consegue fazer é transformar a vontade dos outros numa extensão da própria vontade.
Essa participação alheia costuma desaparecer depois que tudo dá certo. Dizemos “consegui o emprego”, “fechei o contrato”, “conquistei o cliente”. As frases estão corretas, mas contam apenas metade do encontro. Você conseguiu o emprego porque alguém também decidiu contratar você. Fechou o contrato porque alguém decidiu assiná-lo.
Muitas conquistas que chamamos de individuais são, nesse sentido, resultados de encontros entre vontades diferentes. Você pode ter feito quase tudo ao seu alcance e ter sido a principal razão para uma resposta favorável. Ainda assim, em algum momento, outra pessoa precisou tomar uma decisão que não era sua.
Olhe para aquilo que você conquistou e faça uma conta diferente: quantas pessoas precisaram escolher você para que essa história fosse possível?
Você apenas teve Sorte investiga até onde realmente vai nossa autoria sobre aquilo que conquistamos: o que pertence ao esforço, às escolhas e à competência, e o que depende de condições que não escolhemos, pessoas que não controlamos, acontecimentos que não previmos e até daquilo que nunca chegou a acontecer.
Não é uma tentativa de negar o mérito nem de reduzir nossas realizações à sorte. É um convite para olhar com mais cuidado para a história que contamos sobre nós mesmos — e perguntar quanto dela realmente começou em nós.