Filosofia · 5 minutos
Sua vida começou antes das suas escolhas.
Antes da primeira decisão que consegue lembrar, você já existia dentro de condições que não foram definidas por você.
Você não escolheu começar. Antes da primeira decisão que consegue lembrar, já existia dentro de condições que não foram definidas por você. Havia um corpo, uma família, uma língua, uma cidade, uma época e um conjunto de possibilidades que já delimitavam parte do caminho. Sua história começou antes de você poder participar dela.
Isso parece óbvio, mas muda bastante a forma como pensamos sobre autoria. Costumamos localizar o início de uma trajetória na primeira grande escolha: o curso, o emprego, a mudança de cidade, o projeto iniciado. Esses momentos são importantes porque neles conseguimos enxergar claramente alguém decidindo. Mas a pessoa que tomou aquela decisão já havia passado anos sendo formada por um mundo que encontrou pronto.
Você não escolheu sua primeira língua, os exemplos que viu dentro de casa nem as experiências que tornaram certas coisas familiares e outras estranhas. Também não decidiu previamente quais medos teria, quais situações enfrentaria com facilidade ou quais possibilidades pareceriam próximas. Quando começou a escolher, você já era alguém.
Nada disso significa que sua vida estivesse determinada. Pessoas transformam profundamente aquilo que receberam. Mudam hábitos, desenvolvem capacidades, abandonam valores, ampliam possibilidades e seguem caminhos muito diferentes daqueles que seu início parecia sugerir. A escolha é real e pode modificar uma trajetória de maneira extraordinária.
Mas transformar não é o mesmo que criar do zero. Para mudar alguma coisa em si mesmo, é preciso existir antes da mudança. Para desenvolver disciplina, alguma versão anterior de você precisou começar o processo. Para escolher um caminho, certas alternativas precisaram estar disponíveis e você precisou chegar até aquele momento sendo alguém capaz de considerá-las.
É por isso que frases como “eu me fiz sozinho” dizem mais do que conseguem sustentar. Você pode ter construído muito da pessoa que se tornou. Pode ter superado condições difíceis, ampliado suas possibilidades e realizado coisas que ninguém ao seu redor esperava. Ainda assim, você não construiu do nada aquele que começou a construção.
Reconhecer isso não elimina a liberdade nem transforma você em produto passivo das circunstâncias. Apenas coloca a escolha em seu lugar real: dentro de uma história que já estava acontecendo.
Você escolheu muito do que veio depois. Só não escolheu o ponto de onde começou a escolher.
Você apenas teve Sorte investiga até onde realmente vai nossa autoria sobre aquilo que conquistamos: o que pertence ao esforço, às escolhas e à competência, e o que depende de condições que não escolhemos, pessoas que não controlamos, acontecimentos que não previmos e até daquilo que nunca chegou a acontecer.
Não é uma tentativa de negar o mérito nem de reduzir nossas realizações à sorte. É um convite para olhar com mais cuidado para a história que contamos sobre nós mesmos — e perguntar quanto dela realmente começou em nós.